Cinecartaz

Fernando Oliveira

O escritor fantasma

TEXTO ESCRITO AQUANDO DA ESTREIA DO FILME:
“O escritor fantasma” é na essência um thriller político de Roman Polanski. Um filme extraordinariamente realizado, onde o prazer de ver cinema, de percebemos a capacidade do realizador nos contar uma história, tendo a sabedoria de arquitectar as imagens do filme para que o todo seja uma forma superior da arte narrativa e cinematográfica, é o sentimento que nos envolve depois de o vermos.
Como em quase todos os filmes do realizador polaco, é aquela sensação de que os personagens estão a ser engolidos por acontecimentos que eles não compreendem totalmente, que os ultrapassam, e que os vão levando para estados próximos da paranóia e de medos irracionais, que vai definindo o filme. Uma inquietude que toma conta da história, aqui ajudada pela atenção que, como sempre, Polanski dá a todos os pormenores (veja-se como as cenas do empregado asiático a lutar com os elementos para manter a varanda limpa adensam o sentimento de estranheza ameaçadora da situação), e pela espantosa fotografia de Pawel Edelman.
De um grafismo cinematográfico espantoso (a arquitectura da casa da praia, a chuva e o cinzento na paisagem agreste da ilha), num filme que deve muito a Hitchcock (o bilhete a passar de mão em mão até chegar a Ruth Lang, por exemplo), “O escritor fantasma”; muito mais que um filme que conta como um escritor contratado para dar credibilidade à autobiografia de um ex-primeiro ministro britânico acusado de ordenar a tortura a Árabes suspeitos de terrorismo se vê envolvido num caso espionagem (Hitchcock, outra vez); é um inteligente estudo sobre o que é ou não verdade, e de como a dificuldade de o percebermos torna ameaçadoras as realidades em que vivemos. Grande interpretação de Ewan McGregor, o escritor, projectando um notável desprendimento, quase cínico, na sua personagem (veja-se como decide envolver-se com a esposa do politico), que pouco a pouco vai sendo substituído por uma insegurança causada pela falta de referências. Pierce Brosnan é um delicioso boneco de Tony Blair, e Olivia Williams (actriz de que gosto muito) e Kim Cattrall são excelentes a adensarem a atmosfera de encenação que envolve toda a história.
Chamo a atenção para dois pontos que considero negativos na narrativa (por razões óbvias, não vou entrar em pormenores):
Não percebo a necessidade da mensagem encriptada, muito menos daquela maneira…;
E incredibilidade daquele final: se é uma consequência, não se percebe o que leva a ela; se é um acidente, embora sublinhe o sentir transmitido pelo filme, é demasiado estranho….
Mas não deixa de ser um grande filme.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 24-05-2020 por Fernando Oliveira