Cinecartaz

Robin Fior

Habemus mappam

O filme de Nanni Moretti não trata de uma perda da fé, da parte de um cardeal ficcional Melville, mas de um caso de medo do palco - ‘stage fright' do actor representado por Michel Piccoli, e da incapacidade do autor /actor /realizador / argumentista de impor o seu jogo numa realidade. Desde a escolha do nome Melville para o protagonista - do actor/realizador/resistente Jean-Pierre, que escolheu o nome por razão de seu fascínio com o Herman Melville, e o caçador do grande branco cachalote Moby Dick, "Call me Ahab" até a escolha do Miserere ao fim (finis) do filme, do compositor quase-finlandês (Finn[ish]) o estoniano, Arvo Pärt, estamos num mundo poliglota que corresponde à composição mesma do Colégio dos Cardeais, e esta mão cheia dos trocadilhos evoca os défices, e as mais-valias da sua inter-comunicação.

Neste filme, o autor/psico-analista, ou sua altera atribua o medo paralisante do cardeal ‘actor' ao ‘défice parental' - que aliás é exemplificado pelo actor Chekoviano (e maníaco) - que por circularidade, desqualifica-lo por agir como (Santo) Padre, apesar do seu deleite em contactar com o mundo das pessoas. Enquanto Moretti retroverte o Espírito Santo para o sentido do humor, o cardeal ‘actor' Melville (ao contrário ao Woytila, actor amador) recusa o jogo de voleibol como deus ex-máquina, mas é um bom argumento estruturalista (da Escola de Praga), ferramenta essencial para qualquer designer consciente, e dava 4 **** por isto e o calor humano.

Publicada a 28-11-2011 por Robin Fior