Cinecartaz

Miguel Costa

Um Moretti (aparentemente) politicamente correcto.

Nanni Moretti é (re)conhecido por ser um contestatário realizador com ideais esquerda, pelo que seria de esperar q este "Temos Papa" fosse um filme de denúncia política na acepção mais banalizada do termo, ou seja, um panfleto contra a religião católica e as suas instituições (minadas pelos escândalos de pedofilia; pela corrupção; pelo conservadorismo das seus dogmas, e consequente desadaptação à realidade e às novas exigências do mundo moderno ...). No entanto, ele não escolhe "o caminho mais fácil" (e ainda bem, pois torná-lo-ia "banal"), e pelo contrário, procura um novo ângulo, enfatizando o "outro lado" do mundo religioso, mais concretamente, o da(s) crise(s) de identidade dos "apóstolos de deus" ( q - para o bem e para o mal - apesar da posição que ocupam, nunca deixarão de ser simples seres humanos com dúvidas, angústias e vulnerabilidades). Para o efeito relata-nos o drama dum Papa (representado soberbamente pelo Michel Piccoli) que, após ser escolhido pelos cardeais do conclave para exercer o cargo máximo da hierarquia da igreja católica, entra em pânico, por ter receio de não estar à altura das exigências inerentes ao exercicio do mesmo, e recusa-se a surgir perante "os olhos do mundo". Para tentar contornar esta delicada situação a santa sé decide contratar um psicanalista (Nanni Moretti) q, só por acaso, para além de ser freudiano, é ateu ... E pronto, como podem imaginar estão reunidos os ingredientes base para algo de hilariante (com a constante inserção de elementos profanos num universo pretensamente sagrado).
Mas, não sejamos ingénuos ao ponto de acreditar piamente nas palavras do Moretti (q, em entrevista, refere "o filme não é sobre religião, nem pró ou contra a igreja, mas sim sobre a dificuldade em estar à altura das expectativas"), uma vez q a crítica está toda "là", é preciso é saber lê-la nas entrelinhas (e aqui está a genialidade desta pelicula, q pode ser definida como um misto de "quase-comédia", "quase-drama" e "quase-filme critico")

Publicada a 16-12-2011 por Miguel Costa