Cinecartaz

Fernando Oliveira

Paixão

Neste filme o que é verdade? O que é sonho, ou sonho dentro de outro sonho? O que é alucinação ou o é que é desejo? Que o cinema mente, que os filmes não são uma representação transparente da vida, que o artifício e a manipulação são essenciais na arte de contar histórias nos filmes, foi sempre algo que Brian de Palma teve prazer em nos convidar a ver. É um cinema que gosta das particularidades da sua linguagem e das suas formas. Quando nos consegue convencer a entrar nesta floresta de enganos, a emocionarmo-nos com ela, então os seus filmes são sempre experiências fascinantes. É o que acontece com este notável jogo de máscaras (até literalmente) que é “Paixão”, o seu último filme.
Brian de Palma fez parte da geração (com Coppola, Spielberg ou Scorsese, por exemplo) que nos princípios dos anos 70 “dinamitou” (mais baralhou e voltou a dar) o Cinema americano, porque além de cineastas eram também cinéfilos. Em de Palma esta espécie de voracidade cinematográfica levou-o a ser acusado, com alguma justeza, de copista. Se é verdade que muitos dos seus filmes têm referências explícitas a Hitchcock (“Vestida para matar”, ou “Body double”), ou a Eisenstein (“Os intocáveis”), ou transfiguradas a Antonioni (em “Blow out”), há neste gosto pela citação também muito respeito pela memória do Cinema, e ao mesmo tempo uma atitude subversiva dessas memórias, que vem do seu gosto pela reinterpretação das formas fílmicas. Abordou vários géneros, nem sempre com os melhores resultados, mas tem evoluído, deixando esse seu exibicionismo estilístico para um “saber fazer” muito próprio que lhe permitiu criar, por exemplo, “Mulher fatal” em 2002, ainda o seu melhor filme.
“Paixão” é mais um exemplo perfeito das particularidades do realizador. É, de forma simples, um thriller psicológico que evolui para uma história de suspense policial, mas que acaba por misturar tudo numa espécie de labirinto narrativo que não fornece certezas nem respostas, antes nos faz duvidar da nossa percepção, abrindo-o a todas as possibilidades: numa multinacional de Publicidade onde o dinheiro manda, e o poder é o alimento da “alma”, assistimos a um jogo de massacre entre três mulheres, onde a sedução e o desejo, os enganos e as traições vão levar à humilhação e à tragédia. Será?
Um mundo onde a “obrigação” de ser e estar satisfeito é quase sempre o rastilho para o oposto ou, no mínimo, para um jogo de aparências.
E é esta “falsidade” em que vivem os personagens que tão bem se conjuga a forma de filmar de de Palma. Um realizador, que usa e abusa dos exercícios de estilo como função narrativa, criou uma fascinante teia de imagens que sublinham o desvario da história. E é espantoso ver como muitas das suas soluções formais, o ecrã dividido ou os planos geométricos esquisitos, espelham a ambiguidade da história ou a frieza emocional dos personagens. Ou como a fotografia, e a cenografia dos lugares, a presença constante da “insensibilidade” tecnológica, sublimam o que acontece na história.
Sendo um filme sobre o exercício do poder, poderia servir de tese sobre o trabalho do realizador como isso mesmo: é ele que decide aquilo que vamos ver, depois cabe a cada um de nós sentir como olhar. Fez-me recordar a resposta de Resnais a uma pergunta sobre o “O último ano em Marienbad”: perguntaram-lhe “Mas afinal eles encontraram-se ou não?”, ao que ele respondeu, com um sorriso: “Sei lá…”. Ou o final do trailer do citado “Mulher fatal”: “Acabaram de ver o último filme de Brian de Palma. Não perceberam? Tentem de novo”.
Sublinho: fascinante.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt#)

Publicada a 21-01-2021 por Fernando Oliveira