Cinecartaz

Fernando Oliveira

Arrival

Em “Arrival” gosto muito do belíssimo argumento de Eric Heisserer, adaptado de um conto de Ted Chiang, que primeiro nos confunde mas depois se revela em toda a sua inteligência; a história do primeiro encontro com uma espécie alienígena e da dificuldade em comunicarmos com eles, que é contada diluindo o presente e o futuro num mesmo tempo.
Gosto ainda mais da esplendorosa interpretação de Amy Adams numa personagem tocante, que parece frágil, mas onde percebemos uma imensa força.
Ela é Louise Banks, uma linguista, e professora universitária. O filme começa por nos contar o drama em que vive, a morte da filha adolescente vítima de doença. Quando doze naves extraterrestres chegam a locais diferentes do planeta é convocada pelo exército dos EUA para, na nave que paira sobre um campo no Montana, tentar decifrar a sua linguagem e perceber quais são a suas intenções.
É um filme de ficção científica à antiga, onde muito mais que os efeitos visuais interessa a relação da mente humana com os mistérios do Universo. Um filme quase intimista que vagueia como num sonho pela dimensão emocional do acontecimento, em poucos cenários quase minimalistas, cuja narrativa fragmenta o tempo de uma forma que nos deixa espantados quando percebemos como é coerente na sua arbitrariedade.
Se este jogo com as dimensões do tempo é o que mais define o filme (e, claro, as dificuldades de entendimento num mundo marcado pelas desconfianças e os nacionalismos extremados); é a humanidade da personagem interpretada por Amy Adams, as suas tentativas de perceber a linguagem dos Ets (símbolos circulares, névoa escrita em névoa, que exprimem ideias e não sons), e como essa compreensão vai desanuviar a sua percepção daquilo que sente e pressente sobre a sua vida, que mais me emociona no filme.
Claro que a resolução da história levanta algumas questões ambíguas e lógicas: se sabemos o que o futuro nos traz, não tentaremos sempre alterá-lo e com isso criar paradoxos atrás de paradoxos, mas, deixando isso de lado, “Arrival” é um filme inteligente, realizado de forma bastante competente por Denis Villeneuve que, acima de tudo, nos provoca alguns estremecimentos na “alma”. Que nos toca…
Um belo filme.
("em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 04-04-2020 por Fernando Oliveira