Cinecartaz

Fernando Oliveira

Linhas tortas

Luísa (Joana Ribeiro) é uma jovem actriz, vemo-la a ensaiar e depois a interpretar uma peça, ao mesmo tempo trabalha a servir à mesa, está ainda naquela fase em que a vida é uma incerteza. António (Américo Silva) é um jornalista de meia-idade cansado com a sua vida e até com o seu sucesso. “Conhecem-se” no Twitter e a as “conversas” entre eles vão atenuando a solidão e o desencanto que ambos sentem. Quando, enfim, combinam um encontro um acidente troca-lhes as voltas. Depois são as linhas tortas a ocuparem o lugar das linhas direitas…
É muito bonita a forma como o filme narra o envolvimento à distância do casal, o balancear entre o conforto, mais a expectativa, que troca das mensagens lhes traz, e a incerteza sobre o que esperar, sobre como avançar. A forma como filma os personagens nas paisagens citadinas e ambiências caseira para sublinhar o abismo entre a vida virtual e o real; como essa distância nos “coloca” num espaço imaginado fora da realidade; o real filmado como espaço de estranheza; o virtual como um tempo e um espaço à parte. É também muito bonita a simplicidade que encharca o filme, que não lhe limita a notável qualidade técnica e a emoção cinematográfica. Interpretações muito belas na sua sinceridade (Ana Padrão está absolutamente extraordinária na forma como consegue esbater a sua arte na verdade da sua personagem), numa história contada em apenas 68 minutos com muita inteligência e sentir por Rita Nunes.
Um filme muito bonito, até nas suas fragilidades, e que nos emociona. Que, portanto, nos perturba.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 01-04-2020 por Fernando Oliveira