Cinecartaz

Fernando Oliveira

Parasitas

Há um movimento de câmara que abre e fecha (quase) o filme: um travelling vertical que desce da janela ao nível da rua num bairro pobre de Seul para a cave onde habitam os Kim. Entre estes dois momentos Bong Joon-Ho introduz-nos primeiro no quotidiano daquela família, os pais desempregados, um filho e uma filha adolescentes, que vão ultrapassando a pobreza com esquemas mais ou menos ardilosos e não isentos de algum humor (o wi-fi dos vizinhos, ou deixando a janela aberta para que a desinfestação da rua pelos serviços municipais extermine as baratas que infestam a cave), uma família pobre que vive numa casa miserável e suja, mas que não se deixa abater por isso. Uma oportunidade aparece quando um amigo de Ki-woo, o filho, lhe pede para dar explicações de inglês a uma rapariga. Ora essa rapariga pertence a uma família rica, os Park, que vive numa mansão luxuosa desenhada por um arquitecto famoso. As coisas correm bem a Ki-woo e logo no primeiro dia aparece-lhe a oportunidade de empregar também a irmã como “professora” de arte do irmão mais novo da rapariga. Pouco a pouco, através de mentiras (nunca dizem que são familiares) e de muita astúcia e manha toda a família fica a trabalhar na casa. Porque os parasitas parasitam…
Neste contraste entre o que está em baixo e o que está encima, Bong Joon-Ho encena um retrato violentíssimo e alucinante sobre as desigualdades entre os ricos e os pobres, num desenho do mundo social como um sistema cheio de equívocos onde todos são bons e maus ao mesmo tempo, mas onde a verdade escondida daquilo que são os personagens acaba por ser tocante.
Neste movimento entre a cave (o que está em baixo) e a mansão (encima), o realizador prende aquela família numa espécie de labirinto social que os vai levar à tragédia; e é notável como vai semeando momentos (a noite de tempestade e a chuva torrencial que os leva à sujidade extrema) e ideias (o cheiro dos Kim que perturba o olfacto dos Park: os cheiro dos pobres é diferente do dos ricos) que vão abrindo portas após outras e levar o filme da sátira social à tragédia num gore quase delirante (é um filme “muito coreano”), os pobres raramente sobem lá acima. É muito interessante ver a forma como o filme salta entre registos - o cómico, a caricatura e o drama social e o terror – que torna “Parasitas” num perturbante lamento sobre a negríssima linha que divide os pobres e os ricos que, nestes dias, apenas é esbatida por truques políticos. Um lamento tristíssimo, um mal estar que tudo entranha. Ironia será a palavra certa para definir o filme, mas angústia também não parece mal.
A sétima longa metragem de Bong Joon-Ho é um filme tão belo como triste, e um dos melhores filmes deste ano.
(em “oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt”)

Publicada a 23-10-2019 por Fernando Oliveira