Cinecartaz

José Miguel Costa

2 estrelas

Em 2010 fiquei sidereado com o filme “Amores Imaginários”, e ainda mais quando constatei que o realizador era um miúdo canadiano do Québec, de apenas 20 anos, Xavier Dolan. E as suas obras seguintes (“Tom na Quinta”, “Lawrence Para Sempre”, “Mommy” – o meu favorito - e “Tão só o Fim do Mundo”) confirmaram que não se tratou de simples sorte de principiante (até porque "Amores perfeitos" não foi a sua primeira longa metragem - "Eu Matei a Minha Mãe" havia sido distinguido no festival de Cannes no ano transacto), pelo que ao longo dos anos a (não concensual) nova coqueluche do cinema independente foi agregando um pequeno grande culto em seu torno (e eu fã acérrimo me confesso).

Regressa às salas de cinema com a pelicula "A Minha Vida Com John F. Donovan" (tendo uma outra já concluida, "Matthias et Maxime", exibida no Festival de Cannes), a primeira falada em inglês, povoada por uma constelação de estrelas de Hollywood (Natalie Portman, Kit Harington, Kathy Bates, Susan Sarandon, Jacob Tremblay, Michael Gambon e Thandie Newton) e sem a sua habitual participação enquanto actor.
No entanto, esta Hollywoodização parece ter-lhe sugado e vigor e a "alma". De facto, apesar das suas eternas temáticas marcarem presença (o "despontar" da homossexualidade, a aceitação do "eu" e as relações parentais conflituosas), a sua impressão digital é quase irreconhecivel, nomeadamente ao nivel da narrativa (esteticamente ainda conseguimos identificar alguns dos seus maravilhosos "maneirismos" - embora algo "desbotados").
Efectivamente esta apresenta-se-nos como uma amálgama confusa e subdesenvolvida (que deambula atabalhoadamente entre passado e o presente, bem como num incessante ping pong entre as histórias paralelas dos dois protagonistas), vazia/insípida, corriqueira/desinspirada (que não deixa espaço para a dúvida no espectador - tudo nos "explicado"/verbalizado de modo primário), incapaz de transmitir qualquer emoção (quando, por norma, nos "atormentava" com histórias trágicas, intensas e comoventes).
Este "tratar apenas pela rama" estende-se à direcção de actores, uma vez que, de igual modo, subaproveita os recursos humanos que tem em mãos, revelando-se incapaz de desenvolver os personagens anémicos que lhes atribuiu (e que em momento algum conseguem "fazer-nos sentir").

Nem as habitués bandas sonoras estonteantes dão o ar da sua graça, impingindo-nos, incompreensivelmente, uma selecção musical tão pindérica que "até dói".

Esperemos que esta obra (que incide numa entrevista dada por um jovem escritor a uma jornalista acerca sua anterior troca de correspondência, quando criança, com um famoso actor gay não assumido, que não conheceu pessoalmente e cuja morte ocorreu há dez anos), baseada num aspecto pessoal da vida de Dolan (em adolescente era apaixonado pelo Leonardo DiCaprio, o que o levou a endereçar- lhe algumas cartas), seja apenas um (grande) percalço na sua carreira artística.

Publicada a 04-11-2019 por José Miguel Costa