Cinecartaz

Pedro Brás Marques

America uber Alles...

Quem não assistiu mas, por exemplo, leu as aventuras iniciais de Michel Vaillant, o piloto de BD saído dos crayons de Jean Graton, recorda-se duma época em que as marcas de competição automóvel eram verdadeiras manufacturas e os pilotos chamados de “gentlemen drivers”. Nesses anos 60, as provas das várias “fórmulas”, bem como as de resistência, atraiam multidões e os pilotos e as máquinas eram endeusados. É este o “big picture” de “Le Mans '66: O Duelo”, um filme que nos coloca no assento e ao volante do fabuloso Ford GT40, um dos mais míticos carros de competição alguma vez construídos e da sua luta em pista contra a lendária Ferrari.

Em meados dos anos 60, a Ford quase não tinha um sector dedicado à competição, até porque o seu lema era o bem americano “sell, sell, sell”. Mas uma quezília, por via da frustrada aquisição da Ferrari, levou Henry Ford II a dar luz verde para se criar “o melhor carro de corrida de sempre”, dando cheque em branco para que tal se tornasse realidade. Lee Iacoca, o executivo falecido curiosamente este ano e que haveria de brilhar na Chrysler nos anos 80 do século passado, escolheu a empresa do único americano que havia vencido em Le Mans, Carol Shelby, para participar no desenvolvimento do projecto. Este, por sua vez, vai buscar um “maverick”, o britânico Ken Miles, piloto e mecânico de excelência. Em conjunto, irão criar um carro fantástico que venceria a famosa prova francesa de resistência nos quatro anos seguintes.
Para quem gosta de automóveis, a história já era conhecida, mas não deixa de ser fabulosa. O problema é que o filme levou com o irritante “tratamento americano”. Esta é uma história de machos-alfa, predestinados ao sucesso e à imortalidade, quais pioneiros do Velho Oeste ou do Espaço, lutando contra as adversidades, determinados até ao limite do possível, inspirados na sua visão, enfim, a encarnação do espírito americano. Uns verdadeiros “Top Gun” em que, à falta de aviões, temos carros, e onde no primeiro se clamava pela “necessidade de velocidade” e de só se estar bem “no céu, a voar”, aqui, chega-se ao estado zen quando se chega “acima das 7000 rpm”, momento em que o “tempo e o espaço deixam de fazer sentido”… O próprio Tom Cruise já tinha tentado uma abordagem semelhante em “Dias de Tempestade”, mas despistou-se violentamente… Esta apologia do “american way” em “Le Mans 66” tem ainda um segundo nível de leitura: o da América contra a Europa, o do Novo contra o Velho Continente. De um lado, uma fábrica artesanal, com décadas de experiência, em evolução constante, sempre com meios mais ou menos limitados; e do outro, a “big company” de Detroit, com bolsos recheados e aparentemente sem fundo, com capacidade para chamar quantos engenheiros fossem precisos para conseguir criar, quase do nada, um carro capaz de bater todos outros. O sonho americano em toda a sua plenitude.

Claro que não tem mal algum. Quem paga é quem manda. Mas a história merecia uma outra dimensão que não o mero duelo bipolar, o dos americanos que regressam à Europa, vinte anos depois de a deixarem, para dizerem “somos os melhores”. É claro que se tenta dar dimensão a Shelby e, principalmente, a Ken Miles, em duas grandes interpretações de Matt Damon e de Christain Bale – especialmente esta, apesar de algum cabotinismo. O piloto inglês tem um filho e uma mulher (interpretada pela sempre sensual Catriona Balfe), a relação familiar é explorada, mas se não estivesse no ecran não influenciava em nada o desenrolar do filme. A própria realização não merece censura, em especial nas cenas de condução, onde uma montagem vertiginosa associada a um som cru e tonitruante provocam obrigatoriamente um acelerar de batimentos no espectador. Infelizmente, é caso para dizer que belas árvores não formam obrigatoriamente uma floresta encantadora…

Publicada a 17-11-2019 por Pedro Brás Marques