Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

O veterano grego Costa-Gravas mostra-nos com o seu filme "Comportem-se Como Adultos" (uma co-produção franco-grega) que, apesar dos seus 86 anos, ainda continua a dar cartas no âmbito do cinema ideológico.

Consegue a proeza de pegar num livro político-económico de cariz iminentemente técnico ("Adults in the Room: My Battle with Europe's Deep Establishment", do ex-ministro das finanças da Grécia, Yanis Varoufakis) e transformá-lo no argumento desta espécie de thriller politico que retrata as longas e duras negociações/"batalhas" (pouco democráticas) ocorridas, em 2015, entre o recém-eleito governo do Syriza (que herdou um país à beira da bancarrota, a braços com uma crise humanitária e um crescimento exponencialmente da extrema direita) e a dupla Eurogrupo/Troika (que tenta a toda a força impingir um novo/draconiano/"cego" programa de austeridade, que o passado recente já havia demonstrado ser ineficaz).

Apesar de restringir-se quase exclusivamente a expor-nos perante cenários de reuniões nos gabinetes governamentais e nas agências europeias em Bruxelas entre os vários intervenientes políticos e os tecnocratas, com longos duelos verbais de índole económica, jamais se transforma num produto maçudo e/ou incompreensível (mesmo para os leigos na matéria) e, inclusivé, transmite-nos tensão. Talvez por apresentar-se com uma linguagem "descodificada" e revelar-se um importante testemunho/"documento político" sobre a prepotência e hipocrisia de Bruxelas que, com os seus eurocratas não-eleitos, despreza a generalidade dos governos europeus, bem como as respectivas soberanias nacionais, impondo politicas socioeconómicas que beneficiam quase exclusivamente o eixo franco-alemão.

Independentemente de podermos simpatizar/identificar com o seu teor, na verdade esta película apresenta múltiplos handicaps, nomeadamente o seu registo de telefilme (que debita os eventos pela simples ordem cronológica - embora o tente disfarçar com a inserção de algumas metáforas, que, por vezes, resultam algo absurdas) e a sua postura acritica em relação ao governo grego (resumindo-se à visão maniqueísta "vilão versus vitima").

Publicada a 04-12-2019 por José Miguel Costa