Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

O octogenário Ken Loach, depois de vencer o Festival de Cannes, em 2016, com “I, Daniel Blake” , volta a reafirmar-se, através da sua nova obra (“Passámos Por Cá”), como um dos principais rostos europeus do realismo social, não desistindo de expor, através de narrativas duras e cruas, as consequências do neoliberalismo selvagem na (sobre)vivência do proletariado (colocando-nos perante a face obscura do omnipresente capitalismo que subjuga os cidadãos comuns, limitando-se a percecioná-los como meros números - destituídos de identidade e dignidade - numa lógica economicista que apenas visa o lucro - de uma minoria privilegiada - a qualquer preço).

Recorrendo ao seu típico melodrama humanista/genuíno e (ultra)emocional, sem cedência a sensacionalismos demagógicos e manipuladores (embora, desta vez, na fase final, o sucessivo rol de desgraças, apenas não descambe num “miserabilismo pornográfico” devido à fraternidade/serenidade/dignidade das suas personagens, encarnadas por actores não profissionais), não prescinde de dar-nos um brutal “murro no estômago” com a História de uma família de classe média baixa multi-endividada de Newcastle (o rosto de milhares de outras – as tais que acabam por ceder ao “canto da sereia” das forças politicas de extrema direita), que se vê enredada nas malhas dos novos modelos de exploração laboral. Sem vínculos contratuais (destituindo os “colaboradores” de qualquer espécie de protecção social) e remunerações miseráveis (dependentes do cumprimento de objectivos pré-definidos - com graus de exigência progressivos - quase impossíveis de atingir).
Grosso modo, o retrato da economia moderna e tecnológica, que tanto “bate no peito” pelo alegado empreendedorismo.

Publicada a 04-12-2019 por José Miguel Costa