Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Pai, Pai, porque me abandonaste?

O caminho para o fim existencial pode ter muitas cores e contornos, sendo raros os que conservam uma atitude jovial e energética. Na verdade, os fantasmas que assombram a maior parte dos seres humanos, emergem das masmorras da decadência física, mental ou de ambas. O cinema já retratou várias dessas histórias, com destaque para o fabuloso “Amour”, de Peter Handke, mas também “Iris”, de Richard Glatzer com Judi Dench, “Still Alice” de Richard Eyre onde Juliette Moore tem um dos seus melhores papéis e “Nebraska”, de Alexander Payne, para nos ficarmos por exemplos deste século. Então, o que é que “The Father/O Pai” traz de novo e que ainda não foi visto?

Baseado numa peça de teatro escrita pelo francês Florian Zeller, que aqui acumula com a realização, é a história de Anthony, um antigo engenheiro, já com oitenta anos e a quem a filha, Anne, tenta arranjar alguém que cuide dele, até porque quer seguir a sua vida. Mas o mau feitio do pai impede que as cuidadoras por lá fiquem muito tempo… Após a zanga, Anthony volta à sala e depara-se com um homem, sentado e a ler o jornal, que diz ser seu genro e que aguarda a volta de Anne, duma ida ao supermercado. Mas quando esta chega, o vetusto engenheiro fica estupefacto porque esta Anne nada tem a ver com a que ele tinha inicialmente falado. No dia seguinte, chega mais uma candidata, jovem, que recorda a Anthony uma sua outra filha, que nunca mais o veio visitar… Entretanto, no apartamento vão surgindo subtis alterações, com objectos a desaparecerem, enquanto a “Anne inicial” regressa com o namorado, que também é diferente do primeiro…

Tudo parece ilógico, como se dum filme fantástico se tratasse, com portais temporais e espaciais e personagens diferentes a entrarem e a saírem… Mas acabamos por perceber que o que vemos são os efeitos da doença degenerativa que afecta a cognoscência e a lucidez de Anthony. E o golpe de mestre de Florian Zeller foi colocar-nos ao lado do protagonista, ver o que ele vê, e não o habitual relato mais ou menos objectivo da situação. A perturbação, a baralhação, o desnorte de Anthony é partilhado com o espectador quase até ao fim do filme, causando um óbvio desconforto porque há a percepção de que, se por acaso chegarmos a uma condição idêntica, também não seremos capazes de distinguir entre a realidade e o filme que o nosso cérebro vai projectando… Curiosamente, uma estratégia narrativa semelhante é usada pelo concorrente de “The Father” aos Óscares, “Sounds of Metal”, de Darius Marder, com o impacto da surdez do protagonista.

Os citados exemplos de filmes sobre esta temática são quase todos de personagens femininas. Aqui não, e isso é fundamental para ampliar o peso narrativo do filme. Porque a figura paternal é uma referência, até de tradição socio-histórica, já muito antes do tutelar “pater famílias” romano. Ele é a força física que sustenta a família e tem, ao seu lado, a força emocional, representada pela mãe. Mas, aqui, o pai está sozinho, o viço já se foi e a própria filha quer ir viver para Paris… O apartamento, rodeado de arte, de livros e de música clássica, vai-se esvaziando. O engenheiro que, um dia, terá concebido sólidos prédios e estáveis pontes, vê-se reduzido à sua fragilidade existencial.

No papel de Anthony está o seu homónimo de apelido Hopkins, um dos maiores actores britânicos de sempre e que continua perfeito. A voz, a pose, as flutuações de humor, o olhar perdido, ora de desnorte ora de incredulidade, tudo se conjuga para uma composição magistral. Ao seu lado, a também oscarizada Olivia Colman, num registo comprometido, duma filha que tem obrigação de cuidar do pai, apesar dele a desdenhar e verbalizar que prefere a irmã, morta, e que entende que tem direito a viver o seu próprio tempo. Na realização, tratando-se dum filme de interiores, Zeller foge muito bem a uma eventual claustrofobia visual, recorrendo constantemente a grandes planos, no que teve a “sorte” de contar com aqueles dois grandes actores.

Um tema delicado e complicado mas a que foi dada uma abordagem inteligente e, diria até, didática, no sentido de nos dar a perceber uma realidade que, muitos de nós, não querem ver e ainda menos perceber.

Publicada a 06-05-2021 por Pedro Brás Marques