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Pedro Brás Marques

Mães paralelas, Espanhas sequenciais

A Espanha ainda não saiu do divã do psicólogo no que à sua memória histórica diz respeito. Olhando para os nossos vizinhos, por vezes fica-se com a ideia de que a ditadura ainda não está definitivamente ultrapassada, como ainda recentemente se viu com o alvoroço causado pela trasladação dos restos mortais de Franco para fora do Valle de los Caídos.

Pedro Almodóvar resolveu deixar uma marca neste processo, escrevendo e realizando “Mães Paralelas”, o seu filme mais político. Começamos por ser apresentados a Janis, uma fotógrafa, que procura alguém que se debruce sobre uma vala comum existente na sua aldeia natal, onde estarão familiares e amigos dos habitantes actuais. Encontra-se com Arturo, um antropólogo, que a ajuda a levar o projecto avante. Pelo meio, apaixonam-se e ela acaba por engravidar. Quando vai para o hospital, para dar à luz, conhece Ana, uma quase adolescente, com uma relação praticamente inexistente com a mãe. Ambas solteiras, mães pela primeira vez e em simultâneo, acabam por criar um laço entre elas. Janis vive fascinada pela filha, embora Arturo e Elena, sua amiga, revelam alguma estranheza quanto ao aspecto “étnico” da bébé… Meses depois, Janis e Ana reencontram-se e esta revela-lhe que a sua filha morrera. Toldada por dúvidas, a fotógrafa faz testes de maternidade a si e a Ana e acaba por descobrir que houvera uma troca de bebés no hospital e acaba por revelar a verdade à amiga, que fica com a criança. Entretanto, chega a notícia de que a escavação das vítimas recebera luz verde…

Uma obra torna-se tanto mais interessante quanto mais camadas de interpretação possibilitar e o argumento concebido por Almodóvar tem essa virtude, embora ele não tenha tido a arte de o tecer da forma mais hábil que a história merecia. Na verdade, deixou escorregar a trama para o campo do ‘filme de causa’, o que não tem mal, a não ser desequilibrar uma proposta que tinha potencial para ser um grande filme. Atente-se que o título tanto se refere a Janis e Ana, como à antiga e a nova Espanha. A tal verdade histórica, que é assumida pela fotógrafa quando revela a dolorosa verdade filial, tem evidentes ecos na necessidade de exumação dos tombados na Guerra Civil. Só que a dimensão melodramática da história de Janis e Ana tinha potencialidade para viver só por si, sem necessidade da tal “mensagem política” que Almodovar quis passar, bem vincada num final excessivo. Talvez para os espanhóis o paralelismo seja mais digerível, mas quem olha para este objecto cinematográfico enquanto tal, é impossível não sentir o agri-doce do bom que poderia ter sido melhor…

Onde o realizador espanhol realmente é mestre é na direcção de actores, fazendo brilhar Penélope Cruz, Milena Smit e a regressada Aitana Sanchez-Gijon. Recorrendo imenso a grandes planos, destaca a beleza de qualquer das excelentes actrizes, amplificando a dor que as personagens estão a sentir, num registo clássico mais próxima de Wilder do que propriamente de Sirk. Outra nota altamente positiva é a confirmação, se ainda fosse necessária, da coerência da obra de Almodovar, o que também se alcança em dimensões paralelas, olhando para a floresta que constitui a sua obra, e para a árvore que é este filme. Da primeira ressalta a presença de temáticas como a identidade, a maternidade, a infância e juventude traumáticas, além da propensão para o melodrama, tudo presente em “Carne Trémula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Má Educação”, “Julieta” e “Dor e Glória”. Tudo isso ecoa em “Mães paralelas”, a que se acrescentam aqueles detalhes que não são essenciais mas que enriquecem e robustecem a história. Como o facto de Janis ser fotógrafa, alguém que trabalha a importalizar o tempo; o próprio nome da personagem, que é explicado ter sido uma homenagem a Janis Joplin, mas que evoca Janus, o deus romano da mudança, com duas caras, uma virada para o passado outra para o futuro (daí dar nome ao primeiro mês do ano); ou a sessão de fotografia com a transsexual, outra símbolo da questão de identidade, sem esquecer o quadro de Joaquin Sollana, com os miúdos nús a brincarem na praia… Completamente escusado foi a forma como Almodóvar cedeu ao comercialismo, fazendo “product placement” de forma obscena, desde produtos de luxo a automóveis.

Um filme estimulante, rico de simbolismo, mas que ficou a perder com a opção do realizador e argumentista de querer incluir mais do que o que seria necessário e equilibrado.

Publicada a 04-02-2022 por Pedro Brás Marques