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Fernando Oliveira

Mães paralelas

Quando terminou “Mães paralelas” pareceu-me que tinha acabado de ver dois filmes. Grande parte do filme é um maravilhoso melodrama, uma estória que desliza para a tragédia, e que vai das lágrimas à felicidade como todo o melodrama deve ir; com actrizes espantosas que nos comovem e seduzem com o drama e a alegria nas suas interpretações (eu sei que houve Cukor, Mizoguchi, Naruse ou Bergman, mas julgo que Almodóvar é o realizador que melhor “entende” as personagens femininas na longa história do Cinema – realizador homem, entenda-se).
Mas Almodóvar enxerta no filme um conteúdo politico, um subtexto que dá ao filme um peso desnecessário, a que o realizador não consegue dar um significado, envolver uma estória na outra. É qualquer coisa que está ali a mais, que quase nos distrai da magnifica encenação sirkiana da estória que une Janis a Ana.

Janis é fotógrafa para uma revista feminina e no inicio do filme fotografa Arturo que é um conhecido antropólogo forense; depois da sessão pede-lhe que interfira para iniciarem a escavação duma vala-comum perto da sua aldeia natal, para recuperar os corpos do seu avô e de outros homens assassinados durante o fascismo franquista (será um assunto importante mas é a parte desinteressante do filme – à volta da Lei da Memória que define a necessidade de reconhecer os crimes do regime de Franco e identificar as mais de cento e dez mil pessoas que jazem em valas por toda a Espanha). Janis e Arturo iniciam uma relação e Janis engravida. Já passou dos quarenta, para ela é uma felicidade, e decide ter o filho. Sozinha.

No hospital, aquando do parto, conhece Ana, uma adolescente, tão insegura quanto apavorada, que também vai ser mãe solteira, que só conta com o apoio da mãe que não o sabe ser. Janis anima Ana e as duas mulheres prometem manter-se em contacto, mas a vida dá voltas e voltas. Aqui começa um extraordinário filme, melodrama com lágrimas, revelações surpreendentes, e escolhas terríveis, com desenvolvimentos amorosos surpreendentes; e com a música de Alberto Iglésias a deixar-nos em suspense hitchcockiano. Depois o filme volta ao mesmo, a família feliz enquanto as pessoas da aldeia fazem romaria para verem os restos mortais dos seus ascendentes – o final é quase penoso.
É assim um filme sobre heranças, sobre a pertença, sobre o que é ser mãe, sobre o amor. Almodóvar é notável a encenar o drama daquelas mulheres. Não há elogios suficientes para Penélope Cruz, e Milena Smit está também muito bem.
Gostei muito mais de “Julieta” e de “Dor e glória”, os dois filmes anteriores do realizador (ainda não vi "A voz humana"), mas “Mães paralelas” é um filme que ficará na memória deste ano.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 08-12-2021 por Fernando Oliveira