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Mário Ferreira

Um País por Resgatar

"Mães Paralelas" marca o grande regresso de Pedro Almodóvar. Neste filme Almodóvar reconcilia-se com o grande Cinema. Esta é, de novo, uma obra de arte.
Neste filme reaparece uma das maiores musas de Pedro, Penélope Cruz, que se despe por completo e se entrega nas mãos do director. Penélope reaparece, também, num dos seus melhores papéis de sempre.
Aparentemente Almodóvar conduz-nos através de um turbilhão de emoções de duas mães que no fundo, tanto uma como outra perdem as suas filhas. Contudo, essa é apenas a espuma que fica por cima das agitadas ondas. Nesta obra Almodóvar mergulha no trauma da Guerra Civil Espanhola, com a qual uma nação ainda não se reconciliou.
Janis, personagem encarnada pela monstruosa Penélope Cruz, procura encontrar-se a si mesma, fugindo de uma solidão que é não ter passado, nem ter futuro.
A sua busca é em ambas as direções do tempo. O passado que lhe foi arrancado pela Guerra Civil e que se encontra enterrado numa vala comum, e o futuro, a sua filha, que também lhe é arrancado. Aliás há no passado e no futuro uma dupla perda. A Guerra Civil ceifou-lhe mais do que um antepassado, tal como o futuro também lhe foi, de forma igualmente trágica, duplamente amputado. A Janis são-lhe arrancadas visceralmente as suas duas filhas, a de sangue e a do coração.
Janis é assim uma metáfora da Espanha contemporânea, uma Espanha perdida entre um passado com o qual ainda não se reconciliou e um futuro que não existe enquanto o passado não for resgatado, e com o qual se possa reconciliar.
Esta é uma personagem simbólica da verdadeira solidão, uma quase não existência, que vive sem passado nem futuro.
De alguma forma Almodóvar constrói um argumento portentoso, com uma direção magistral, construindo uma quase parábola sobre a Espanha contemporânea.
De uma forma subtil e delicada, Almodóvar mostra que o futuro de uma nação não existe enquanto não se fizerem as pazes com o passado.
O Mestre está de volta.

Publicada a 05-12-2021 por Mário Ferreira