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Pedro Brás Marques

Essência de Amor

O Amor. Não há tema mais presente em toda a História da criação artística. Ensaios, romances e poemas, estátuas, fotografias, filmes, quadros, canções e discos, tudo já serviu de base para concretizar o sentimento mais extraordinário que pode unir dois seres humanos. Felizmente, o filão é inesgotável e há sempre mais um espaço disponível em qualquer coração apaixonado. Como para este delicioso “Licorice Pizza”.
Estamos em 1973, no vale de São Bernardino, um subúrbio de Los Angeles. No liceu local, organiza-se a sessão de fotos para o livro de finalistas. Na fila, Gary aguarda a sua vez, enquanto, a receber os alunos, está Alana. A química é imediata mas só ele tem coragem para avançar, propondo-lhe encontrarem-se no restaurante favorito dele. Ela acaba por aceitar, mesmo sabendo que ele tem 15 anos e, ela, 25. A partir dali a relação, nunca assumida e ainda menos consumada, vai evoluindo entre avanços e recuos, aventuras e desventuras até ao desenlace.
Gary é bem disposto, extremamente confiante, empreendedor e precocemente racional. Não há obstáculo que o consiga travar, seja ao nível empresarial, onde revela qualidades inatas, ou amoroso, jamais desistindo daquela que, mal a viu, logo concluiu que iria ser a mulher da sua vida. E não é por a ver com outros namorados que Gary desiste. A sua determinação move montanhas e nada o fará parar. Já Alana é emocional, reage impulsivamente e está algo perdida, gastando a sua inteligência, e o seu potencial, em empregos ocasionais e sem futuro. Sabe que sente qualquer por Gary mas a sua verde maturidade impede-a de dar o passo final. Ou seja, temos um jovem que actua como adulto e uma adulta com a insegurança dos jovens. E depois temos adultos que são completamente crianças, como o produtor Jon Peters (Bradley Cooper) ou o actor Jack Holden (Sean Penn), personagens secundárias que servem de contraponto às do par principal. Gary é interpretado por Cooper Hoffman e Alana por Alana Haim. São estreantes absolutos. E estão perfeitos. O primeiro é filho do saudoso e extraordinário Philip Seymour Hoffman e herdou do pai aquele poder impactante da sua presença física. Ela é Alana Haim, da banda indie Haim e aparece com toda a sua família: as irmãs e os pais da personagem são os da vida real. Ou seja, Paul Thomas Anderson, como todos os grandes realizadores, acaba por trabalhar com o que se pode chamar de “família de actores”, aqui levado à literalidade. Se não temos o pai, temos o filho, contámos com a verdadeira família Haim, temos John C Cooper, temos Sasha Spielberg e George DiCaprio cujos apelidos dispensam explicações e nos evocam, respectivamente, os trabalhos de “familiares” em especial na zona temporal entre “Encontros imediatos do 3º Grau” e “ET” para a primeira, “Once Upon a Time in Hollywood”, para o segundo. Ah, claro, não podemos esquecer a Los Angeles dos anos 70 em “Boogie Nights”…
Mas ao contrário dos melhores filmes de Anderson, negros, arrastados e violentos, como “Magnolia”, “There Will Be Blood” ou “The Master”, “Licorice Pizza” está cheio de luz, de esperança e de movimento. O realizador optou, e muito bem, por captar cinematograficamente a velocidade da juventude. Gary e Alana correm imenso, dum lado para o outro, por vezes um para o outro. A câmara, em vez de os deixar evoluir no plano, opta por os acompanhar, tornando-nos companheiros da sua viagem (a literal e a simbólica, claro). Aliás, a metáfora estende-se às viagens rodoviárias, com o alerta, subtil, de que as viaturas não se mexem se não tiveram combustível. Daí que seja preciso “alimentá-las”…
Gary e Alana são dois grãos de poeira em constante movimento, aguardando, eles e nós, que os deuses promovam a sua união. E Paul Thomas Anderson gere esta tensão dinâmica entre os dois, de forma sapiente, jamais permitindo que o amor se transformasse em sexo. Porque o que está em causa é a natureza profunda do sentimento, onde ainda não há compromisso nem se evoluiu para a partilha física. Uma outra armadilha de que Anderson soube escapar foi a do revivalismo que hoje se verifica relativamente ao imaginário dos anos 70/80, como no citado filme de Tarantino e em séries como “Stranger Things” ou “Home Before Dark”. O realizador não as rejeita, mas coloca-as no local certo, na “feira da ciência” da escola, qual museu. Porque o fundamental não é a forma que é efémera, mas a essência, que é intemporal.

Publicada a 03-03-2022 por Pedro Brás Marques