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Fernando Oliveira

Licorice Pizza

Há filmes assim, filmes que nos deixam felizes, que nos contagiam com a sua suave inocência. A sua história enleia-nos, querermos seguir as personagens que a habitam. Paul Thomas Anderson abandona as histórias de homens que se deixam perder no poder que têm e na complexidade que os define, e dá-nos um filme assim: “Licorice Pizza” é abraço nostálgico a um lugar, e a uma época (San Fernando Valley, onde o realizador cresceu, na segunda metade de 1973), sobre a euforia mas também as angústias da descoberta do amor entre um rapaz de quinze anos e uma mulher dez anos mais velha, que vão aprender a conhecer-se um ao outro e também a si próprios.

Anderson volta a Encino (o mesmo bairro aonde nos é contado “Boogie nights”), Gary está no liceu, é um rapaz que encara a vida com alegria, tem uma carreira modesta como actor de televisão e publicidade, e uma confiança inabalável nas suas escolhas. Alana não sabe bem o que quer da vida, esta insegurança impede-a de “abandonar” a adolescência. Quando a vê pela primeira vez, Gary diz-lhe (e diz-nos) que ela será a mulher da sua vida, desenrascado, convida-a para ir ter com ele mais tarde beber um copo. Ela acha-lhe graça e vai.

A estória dos dois vai andando devagar, suavemente, passos à frente e passos atrás; os dois tornam-se sócios num negócio de venda de colchões de água, namoriscam um com um outro, namoriscam outras pessoas; ele é um adolescente que procura ser adulto, ela é uma mulher que muitas vezes “foge” para a adolescência (é ver a cena em que ele lhe pede para ver os seios, ela deixa-o, volta atrás e desaperta a blusa e depois esbofeteia-o quando ele lhe pergunta se pode tocar neles). A crise petrolífera que quase paralisou o Mundo nesse ano acaba com o negócio dos colchões, ela começa a trabalhar como voluntária na campanha de um político local, e ele abre uma casa de flippers.

Anderson olha para os dois com uma enorme generosidade, não os torna complicados, “dançam” um com o outro, existem apenas para o presente. São duas personagens absolutamente maravilhosas. E é tão bonito ver que quando a vida os puxa para lados diferentes, quando Gary se descobre sozinho no meio da multidão, e Alana se apercebe o desencanto que chega com a vida a adulta, abandonam tudo e correm para os braços um do outro. Há quanto tempo não víamos um final assim?

Anderson gosta de histórias que o fascinem e intriguem. De filmar lugares que conhece (Licorice Pizza foi uma loja de discos que nunca é mencionada e, julgo, nunca é mostrada no filme), de pôr na narrativa memórias ou coisas que lhe contaram sobre as pessoas desses lugares. E é notável neste filme o amor que sente pelos seus dois personagens e pelos actores que os interpretam. Na sua estreia, Cooper Hoffman e Alana Haim são extraordinários na sua naturalidade (Anderson diz que quando se filma dois rostos como o de Cooper e Alana aquilo que o realizador deve fazer é mostrar simplesmente o que acontece entre eles, deixar os actores confundirem-se com as suas personagens). E depois Cooper é muito parecido fisicamente com o pai (o falecido Philip Seymour Hoffman que representou em muitos dos filmes do realizador); e Alana é Alana Haim, das Haim que têm vários videoclips realizados por Anderson, e que viu toda a sua família convidada para interpretar a sua família no filme (usando o mesmo primeiro nome, só mudando o apelido). Tudo isto nos emociona, tudo isto é muito bonito.
Um filme inteligente que nos toca, e que nos encanta. O mais belo filme do ano passado.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 15-01-2022 por Fernando Oliveira