Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Estamos na França pré-Maio de 68 (mais propriamente em 1963), na qual o grito de ipiranga libertário ainda não se fez ouvir, pelo que o aborto continua a ser um acto ilegal que implica pena de prisão para as galdérias que ousem mandar no seu corpo e praticar tal acto pecaminoso.
No entanto, não será tal condicionante que demoverá a jovem Anne (subtil e intensamente encarnada pela magistral Anamaria Vartomel - fiquemos de olho nela!), estudante pré-universitária brilhante e controversa, pertencente à classe operária, que fará tudo o que estiver ao seu alcance, mesmo colocando a vida em risco, para livrar-se de algo que alienará por completo o seu futuro (e que no imediato implicará a cessação irreversível da sua condição de estudante).

"O Acontecimento" (galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza) não é propriamente um filme militante sobre o aborto (embora também o seja, mesmo que indirectamente), uma vez que a realizadora Audrey Diwan foca-se não tanto no evento em si, mas sobre as implicações que uma gravidez indesejada poderá ter nas vivências e perspectivas de uma jovem (neste caso "bem resolvida e dona do seu nariz"), que provavelmente ficará "hipotecada" ad eternum, devido à aniquilante moral vigente na sociedade.

De igual modo, não opta por um registo sensacionalista, o que não impede que, com mestria, vá intensificando gradualmente os níveis de ansiedade nos espectadores, à medida que a saga solitária da forte/convicta Anne se vai desenrolando num percurso carregado de obstáculos. E tal intensidade é obtida graças ao seu eximio modo de filmar, que "usa e abusa" dos grandes planos (para impedir que percamos qualquer movimento, por minimo que seja, do expressivo rosto da protagonista) e da câmara ao ombro.

Publicada a 18-01-2022 por José Miguel Costa