"Persépolis" é a história de uma menina que cresce no Irão durante a Revolução islâmica, a história autobiográfica de Marjane Satrapi, que já dera origem a quatro livros de banda desenhada. É através dos olhos da destemida Marjane, de nove anos, que é vista a esperança de um povo ser destruída quando os fundamentalistas tomam o poder, forçando as mulheres a usar o véu e prendendo milhares de pessoas.
Inteligente e extrovertida, Marjane consegue, mesmo apesar das proibições, descobrir a cultura punk, os Abba ou os Iron Maiden. Mas quando o tio é cruelmente executado e as bombas começam a cair sobre Teerão durante a Guerra com o Iraque, o medo começa a ganhar forma. E a ousadia de Marjane torna-se uma preocupação para os pais que acabam por tomar a difícil decisão de a enviar para uma escola na Áustria. Aí, sozinha, Marjane é confundida com o fundamentalismo religioso, exactamente aquilo de que fugiu do seu país. Mas, com o tempo, acaba por ser aceite. Quando termina o liceu, Marjane decide regressar ao Irão, mas aos 24 anos percebe que não pode continuar a viver no seu país, que trocará pela França, numa decisão cheia de optimismo face ao futuro.
Um filme comovente, trágico e ao mesmo tempo cheio de humor, sobre a ignorância, a intolerância e a forma como há pessoas que continuam a lutar contra as suas consequências e por fazer a diferença. O elenco de vozes é familiar: Marjane tem a voz de Chiara Mastroianni e a mãe de Marjane tem a voz da mãe de Chiara, Catherine Deneuve; já a avó é interpretada por Danielle Darrieux, que, pode dizer-se, faz parte da família cinéfila da diva francesa com quem partilhou uma dezena de filmes.
Satrapi, que além de assinar a BD original co-realiza o filme, nasceu em Teerão em 1969, onde viveu antes de se mudar para Viena e, depois, para França. Em 2000, foi publicado o primeiro álbum da série, editado em Portugal três anos depois pelas Edições Polvo. Outro artista de BD, Vincent Parannaud - também conhecido como Winshluss, um premiado autor francês de banda desenhada alternativa - assina também a adaptação ao cinema da obra.
Distinguido com o Prémio do Júri no Festival de Cannes, o filme foi candidato ao Óscar de melhor longa-metragem de animação e, entre outras distinções, ganhou o Prémio do Público nos festivais de São Paulo e Roterdão e foi considerado o Melhor Filme de Animação pelo círculo de críticos de Nova Iorque e Los Angeles. PÚBLICO
Começou por ser BD de culto,
acabou candidata ao Óscar de
melhor longa de animação; pense-se
na Mafalda de Quino transposta para
o Irão da revolução islâmica e
igualmente corrosiva no seu olhar ao
mesmo tempo lúcido e esquinado
sobre as coisas e chega-se perto de
"Persépolis"-filme, versão em
animação estilizada a preto e branco
de baixa fidelidade da autobiografia
escondida com rabo de fora que era
"Persépolis"-livro.
"Persépolis" tem concitado uma atenção pouco habitual para filmes de animação, conseguindo destacar-se em territórios tradicionalmente estranhos ao género (um prémio do júri em Cannes no ano passado), e em mercados, como o americano, dominados pelas grandes "máquinas" oriundas dos estúdios da Disney, da Pixar ou da Dreamworks (sucesso de que a presença de "Persépolis" na lista de nomeados para o Óscar de melhor longa-metragem de animação será o mais saliente sinal).
Leia o livro e veja o filme? Não. Veja o filme. É candidato aos Óscares. As autoridades iranianas dizem que é anti-iraniano. Marjane Satrapi diz que é pró-iraniano e não é possível não gostar do Irão vendo "Persépolis". É hilariante. Tem uma "cover" de "Eye of the Tiger". É terrível. Tem execuções, guerra. A protagonista é valente e cobarde, deprimida e eufórica. Marjane gostava que o filme fosse como a gente. Leia o livro e veja o filme? Não. Veja o filme. Mas depois de o ver, leia o livro.