"Kill Bill: A Vingança", de Quentin Tarantino foi um dos filmes mais aguardados de 2003 e sagrou-se como a longa-metragem do ano. Este "Kill Bill 2" está ainda a gerar mais expectativas depois de a primeira parte ter deixado rendidas plateias em todo o mundo.
Nesta segunda parte, a Noiva (Uma Thurman), depois de ter arrumado (literalmente) O-Ren Ishii (Lucy Liu) e Vernita Green (Vivica A. Fox), duas das suas antigas colegas das Deadly Viper Assassination Squad (DIVAS), vai continuar a sua vingança.
No dia do seu casamento, a Noiva, grávida, foi atacada por Bill, o líder das DIVAS, e pelas outras Vipers. Mas a noiva não morreu, ficou apenas em coma. E quando acorda o único pensamento que tem presente é a vingança. Agora, na sua lista de nomes a abater, faltam apenas Budd (Michael Madsen) e Elle Driver (Daryl Hannah). E, é claro, Bill (David Carradine), o seu último alvo, que a deixa ainda mais sequiosa de vingança, até porque afinal a sua criança sobreviveu. PUBLICO.PT
Quando, como, é que o cinema passou a ser também um "cinema de depois"? A opus 1 de Jean-Luc Godard, "A Bout de Soufle/O Acossado" (1960) era dedicado à Monogram Pictures, quase obscura produtora de "série b" - porque com a "nouvelle vague" havia pela primeira vez uma geração de cineastas conhecedores da história da arte cinematográfica. Mas também no maneirismo do cinema "em segundo grau" com "Por um punhado de dólares" (1964) de Sérgio Leone, "western-spaghetti", que de facto era um "eastern", paródia óbvia de "Yojimbo" de Kurosawa, já de si um filme de crise em que o mestre japonês substancialmente se autoparodiava retomando "Os Sete Samurais".
Tarantino desacelera em "Kill Bill 2", mais comedido nas piruetas visuais do que no festim tarantóide do primeiro filme (em todo o caso, agora que estamos na posse da "obra completa", teremos de olhar para "Kill Bill 1" com outros olhos). Este é o volume da gravidade, mais próximo de um "Jackie Brown", até pelo facto de ser um objecto para uma actriz como aquele era. É, porventura, o que mais surpreende: que Tarantino revele aqui uma doçura, uma redenção maternal, que o filme seja feito completamente do lado da sua musa (extraordinária), Uma Thurman. Q&U, pois, como não há outro par.
Vi o "Kill Bill Vol.1" e pura e simplesmente assisti a uma obra de arte, uma obra-prima do cinema mundial, através de uma orgíaca beleza de violência e cores, se é que a violência, quando filmada, pode ser bela. Este segundo filme corrresponde a um exercício em que se extirpa o filme de toda aquela orgia de cores e violência coreografada, mas que corresponde, para mim, à preparação do caminho para o reencontro final entre Bill e a vingadora! Curiosamente, pareceu-me um filme que apela muito mais ao sentimento, à inevitabilidade de um fim que se adivinha, à inevitabilidade da vingança, e por isso mesmo aparentemente depurado de quaisquer formas de beleza nos rituais e na morte. É um filme cru...