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Está a começar a temporada dos "blockbusters". Depois das sobras do ano anterior e dos candidatos aos Óscares, a partir de Maio começam a chegar aos cinemas os filmes que vão encher os multiplexes dos centros comerciais e fazer disparar o consumo de pipocas. Este ano as hostilidades abrem a 4 de Maio com "Missão: Impossível III", o terceiro volume de um "franchise" criado em 1996 a partir da adaptação da série de televisão do final da década de 60. Apesar do sucesso dos seus dois antecessores, o filme teve um processo de pré-produção complicado. Primeiro foi o realizador Joe Carnahan a deixar o projecto em Julho de 2004 alegando diferenças criativas o que provocou mais um adiamento nas filmagens e a perda do elenco que na altura incluía Scarlett Johansson Carrie-Ann Moss e Kenneth Branagah. Já com novo realizador, JJ Abrams, e novo elenco a bordo foi a vez dos executivos da Paramount mostrarem preocupação com o orçamento galopante do filme (chegou aos 150 milhões de dólares) e com o comportamento de Tom Cruise durante a promoção de "Guerra dos Mundos" - também da Paramount -, que incluiu declarações de amor eterno por Katie Holmes e saltos para o sofá do programa de Oprah Winphrey.
Ultrapassados os obstáculos o filme está pronto a estrear, a campanha de promoção está a todo o gás e ganhou ainda mais notoriedade graças ao Óscar conquistado por Philip Seymour Hoffman, que será o vilão de "Missão Impossível III". Com a cotação em alta na televisão onde é responsável pelas séries "A Vingadora" e "Perdidos", JJ Abrams estreia-se aqui no cinema e promete mostrar Ethan Hunt "não só como um espião mas também como um homem".
E da polémica nasce o filme... Não demorou muito para o "Código Da Vinci" chegar ao grande ecrã. Publicado em 2003, o livro de Dan Brown já vendeu cerca de 40 milhões de exemplares em todo o mundo, um sucesso apenas igualado pela polémica em torno da história que envolve uma conspiração secular para ocultar a verdade sobre a vida de Jesus e de Maria Madalena. A Sony Pictures venceu a corrida ao pagar a pequena fortuna de seis milhões de dólares pelos direitos da adaptação, um valor alto mas que é apenas uma pequena parte de um bolo de 125 milhões investidos para transformar em imagens o que Brown criou no papel. À equipa por trás do oscarizado "Uma Mente Brilhante" (Ron Howard na realização, Brian Gazer na produção e Akiva Goldsman no argumento) juntou-se um elenco com Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Alfred Molina, Jean Reno e Paul Bettany, naquela que é a grande aposta da Sony para este ano depois de um 2005 decepcionante.
À semelhança do que aconteceu com outros filmes no passado ("A Paixão de Cristo" por exemplo), o estúdio espera que a polémica que rodeia o filme (Dan Brown defende-se em tribunal de uma acusação de plágio, a abadia de Westiminster recusou servir de palco para as filmagens e a Opus Dei apelou à Sony para que alterasse o final do filme...) sirva de motor para um grande lucro nas bilheteiras mundiais. Em Portugal "O Código Da Vinci" chega dia 18 de Maio, apenas um dia depois de abrir o Festival de Cannes.
E virão também os super-heróis. Desde o final dos anos 90 que os filmes baseados nos super-heróis da BD se tornaram uma constante nas salas de cinema, fruto do êxito de filmes como "Blade" ou "X-Men". Este ano não vai ser excepção com a estreia de "X-Men 3" (25 de Maio) e "Superman Returns" (previsto para 17 de Agosto em Portugal). Os dois filmes protagonizaram um curioso duelo ainda antes de começarem a ser filmados quando Bryan Singer, o realizador dos dois primeiros "X-Men", recusou regressar para a terceira parte, preferindo antes assumir a realização de "Superman Returns".
A notícia enfureceu a Fox que inicialmente substituiu Singer pelo praticamente desconhecido Mathew Vaughn ("Layer Cake"), que por sua vez deixou a produção ao fim de três meses de trabalho alegando "motivos pessoais", acabando substituído por Brett Ratner (que a dada altura esteve cotado para realizar "Superman Returns").
Apesar dos percalços e da hostilidade dos fãs para com a escolha de Ratner, "X-Men 3: The Last Stand" conseguiu cumprir o seu calendário e o recém lançado "trailer" parece ter conseguido dar o benefício da dúvida ao realizador de "Dragão Vermelho". Ratner afirmou ao Sci Fi Wire que tornou este terceiro capítulo "mais emocional", mas mantendo-se fiel ao tom dos dois filmes anteriores pois "o público preocupa-se tanto com estas personagens que foi muito importante para mim mantê-las fiéis ao que elas já eram". Ao elenco dos dois primeiros filmes juntam-se agora Kelsey Grammer (imortalizado na série de TV Frasier), Vinnie Jones, Ben Foster e Ellen Page como Beast, Juggernaut, Angel e Shadowcat, respectivamente.
"Superman Returns" teve um "parto" também difícil. Há mais de dez anos que a Warner Brothers tentava tirar do papel um projecto que passou pelas mãos de realizadores tão diferentes como Tim Burton e McG até finalmente se tornar uma realidade pelas mãos de Bryan Singer. "Eu sou adoptado, sou norte-americano e sou filho único, o Super-Homem também é essas três coisas", disse o realizador à revista Now Playing, mas o que o atraiu mais para o projecto foi o facto do Super-Homem ser "o imigrante definitivo".
Singer escolheu o desconhecido Brandon Routh para envergar o manto do Super-Homem, sucedendo ao falecido Christopher Reeve numa tarefa que o jovem actor classificou de "incomensurável". Kevin Spacey, na pele do vilão Lex Luther, é o nome mais sonante de um elenco que tem também Kate Bosworth como Lois Lane, James Mardsen como Richard White e a voz de Marlon Brando (que participou em "Superman" e chegou a gravar uma participação em "Superman II" que não chegou a ser usada) como Jor El - uma participação "pós-mortem" graças à tecnologia.
Foi uma das surpresas do Verão de 2003, altura em que fez mais de 650 milhões nas bilheteiras.
Aconteceu com "Piratas das Caraíbas" e não demorou muito para a Disney anunciar não uma, mas duas sequelas, filmadas de forma consecutiva. Inspirado num dos divertimentos da Disneyland, o primeiro filme valeu uma nomeação ao Óscar de melhor actor para Johny Depp que deu vida a um inebriante Jack Sparrow e ajudou a tornar Orlando Bloom e Keira Knightley em estrelas.
Com "Pirates of the Caribbean 2: Dead Man"s Chest" (20 de Julho) o estúdio espera repetir o sucesso de há três anos e para tal conta com a mesma equipa do primeiro: Jerry Bruckheimer na produção, Gore Verbinski na realização e, claro, o trio de protganistas aos quais se junta um novo vilão, nada mais nada menos do que o Holandês Voador, interpretado por Bill Nighy. Para o ano, por esta altura, há nova dose de pirataria com o capítulo final da trilogia, onde devemos finalmente poder ver um "cameo" de Keith Richards, que Depp confessa ter servido de inspiração para criar a sua personagem.
tem os dias contados? São estas, então, as apostas dos estúdios de Hollywood para a próxima temporada: "blockbusters" de grande orçamento. Mas com a indústria norte-americana a passar por uma das suas maiores crises de sempre, resta saber se esta constante aposta em filmes com lucros cada vez mais incertos é a aposta certa.
George Lucas, que partilha com Steven Spielberg a paternidade do conceito de "blockbuster" - inventaram-no, na prática, algures no final dos anos 70 com "Tubarão" e "Guerra das Estrelas" -, antecipou o final dos filmes de grande orçamento para 2025. Em declarações ao New York Daily News Lucas afirmou que "As forças de mercado que existem hoje fazem com que seja irrealista gastar 200 milhões de dólares a fazer um filme. Estes filmes não conseguem recuperar o dinheiro. Basta ver o que aconteceu a "King Kong"."
O filme de Peter Jackson custou 207 milhões de dólares e apesar de no final ter dado um lucro total de 544 milhões, as perspectivas da Universal foram largamente defraudadas, não se tivesse falado insistentemente que este seria o filme que bateria o recorde de receitas de "Titanic", que em 1997 rendeu 1,800 milhões.
As afirmações de Lucas não surgem do nada. O modelo de "blockbuster" tem sido questionado nos últimos anos, essencialmente devido ao falhanço junto do público de grandes produções incapazes de ter o retorno do investimento. Quando Spielberg lançou "Tubarão", em 1975, o filme custou sete milhões de dólares. Meses depois transformava-se num sucesso esmagador de bilheteira, arrecadando mais de 470 milhões. Em 1977 George Lucas superou a fasquia com "Guerra das Estrelas". O filme custou 11 milhões - bem longe dos 113 milhões que foram precisos para fazer o último episódio da saga, "A Vingança dos Sith" - e rendeu 745 milhões. Definiu-se então que um filme teria de ter um lucro acima dos 200 milhões para receber a designação de "blockbuster". Mas, com o passar dos anos, as pessoas foram associando o termo a filmes, de acção, com gigantescos orçamentos e estrelas a servirem de chamariz. De repente era a dimensão do filme e não o lucro que se tornava importante. Como disse Lucas, essa situação já não é sustentável.
É díficil perceber o que tem abalado a indústria. Por um lado o mercado crescente de DVDs tem afastado as pessoas das salas. O conforto do lar tem sido o pesadelo dos distribuidores e donos de salas de cinema que, ano após ano, têm-se defrontado com a dura realidade de salas cada vez mais vazias. Por outro lado, o aumento crescente da pirataria, especialmente junto dos mais novos, é uma realidade que os estúdios não sabem como combater.
Mas será que isso explica os falhanços de bilheteira de filmes como "A Ilha" ou "Stealth"?
O que se passa é que o público norte-americano tem estado a virar as costas aos "blockbusters". Não necessariamente a filmes de grande orçamento. Afinal de contas, tanto o último capítulo da "Guerra das Estrelas", como os infanto-juvenis "Harry Potter e o Cálice de Fogo" e as "Crónicas de Narnia", custaram mais de cem milhões de dólares, e acabaram por ser os filmes mais rentáveis do ano. A questão não se põe nesses termos. Até porque os modelos mais rentáveis continuam a ser os filmes de fantasia e as comédias.
O que os grandes "flops" de bilheteira de 2005 têm em comum é o de funcionarem como o reciclar de um modelo de filme que parece estar esgotado. A fórmula com acção, efeitos especiais, actores de renome e, como engodo, "sex-symbols", parece ter deixado de resultar. Tanto "A Ilha" como "Stealth" custaram mais de 120 milhões de dólares e nenhum rendeu mais de 40 milhões nos EUA. Nem as presenças de Jamie Foxx, Ewan McGregor, Scarlett Johansson ou Jessica Biel foram suficientes para atrair o público.
É uma realidade que não é nova. O falhanço do modelo dos épicos históricos em 2004 - com "Alexandre" e "Tróia" - vem confirmar uma tendência. O público está a virar as costas a um cinema onde não se olham a gastos para se atingir os fins. E a indústria já começa a pagar o preço. A Dreamworks - estúdio criado por Spielberg em meados dos anos 90 e produtora de sucessos como "O Resgato do Soldado Ryan", "Gladiador" ou "Beleza Americana" - não sobreviveu ao falhanço de "A Ilha". Os prejuízos foram de tal ordem que a empresa acabou por ser comprada pela Viacom, que já era dona dos estúdios Paramount. A venda da Dreamworks foi o primeiro sinal.
"No futuro, quase tudo o que for para as salas de cinema será cinema independente. Em 2025, o custo médio dos filmes será de 15 milhões de dólares". A frase é de George Lucas que se inspira no modelo que tanto sucesso fez este ano. Os grandes destaques de 2005 - os filmes aplaudidos pela crítica, nomeados aos Óscares - acabaram por servir como exemplo. "Colisão", eleito o filme do ano pela Academia, custou uns meros 6.5 milhões de dólares e rendeu 83 milhões. "O Segredo de Brokeback Mountain", o seu grande rival, custou 14 milhões e arrecadou 150 milhões de dólares nas bilheteiras.
Estará aí o futuro? É verdade que todos os grandes estúdios já criaram subsidiárias para descobrirem as pequenas pérolas "indies" que vão sendo apresentadas, especialmente em festivais como Sundance ou Toronto. Mas só isso, por si, será suficiente para salvar a indústria de um pesadelo que parece não ter fim? Ou, pelo contrário, serão as apostas de 2006 - com novos "takes" de títulos bem sucedidos no passado - o balão de oxigénio que Hollywood precisa? Léccio Rocha e Miguel Lourenço Pereira (PÚBLICO)  |
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