Cinecartaz

Fernando Oliveira

Ziegfeld Follies

Não segue a estrutura comum dos musicais do Cinema clássico americano onde os números dançados e cantados interrompiam a linha da narrativa para a sublinhar momentos de euforia ou de evasão, quase como se fossem um sonho, um movimento maravilhoso a contrastar com as agruras da vida ou a desilusão amorosa, ou a sublimar a alegria de viver. É mais uma sequência de cenas que pretendem ser uma homenagem a Florenz Ziegfeld, responsável por alguns dos maiores sucessos da Broadway nas primeiras décadas do século passado. Mistura números dançados e cantados e momentos cómicos, como se fosse um espectáculo de palco pensado por Ziegfeld, e é esse o segmento inicial: no Céu, ele imagina como seria se pudesse encenar um novo espectáculo.
Para esta homenagem, a MGM convocou grande parte dos seus recursos criativos – o produtor Arthur Freed; Cedric Gibbons nos cenários; os seus actores e actrizes mais famosos; ocupou vários realizadores: Vincente Minnelli, George Sidney e mais alguns – e quis colocar no filme a feeria mítica dos espectáculos de Ziegfeld. Esse deslumbramento não estará nos números cómicos (embora ainda tenham muita piada os segmentos “Paga os dois dólares” e do bilhete de lotaria premiado), ou nalguns segmentos musicais perfeitamente olvidáveis (“A Traviata”, o bailado aquático de Esther Williams, ou o “Amor” cantado por Lena Horne), mas está nas marionetas com que o personagem de Ziegfield (interpretado por William Powell) recorda as pessoas com quem trabalhou; e está nos números realizados por Vincente Minnelli – não tanto no único encontro no Cinema de Fred Astaire e Gene Kelly em “The Babbit and the Bromide”, mas nos extraordinários “This heart of mine” e “Limehouse blues” em que Astaire dança com Lucille Bremer, ou em “A great lady has a interview” com Judy Garland, que na altura namorava o realizador – que, recordo, encenou na Broadway algumas da Follies, antes de ir trabalhar para Hollywwod na década de 40. E o que será mais notável nestes três números é o sentimento de ironia, de alguma tristeza, e até de crueldade que invade subtilmente a beleza dos números – no primeiro, um ladrão e uma princesa dançam, mas quem “engana” quem mesmo se o amor ganha aos dois; no segundo concebido como uma pantomina dramática, no bairro chinês um homem é baleado durante um assalto por causa de um leque e da mulher que ama platonicamente, e ela prefere o homem rico que o pode comprar, mas ela rejeita o leque, está sujo com o sangue do primeiro homem, o amor só acontece no sonho dançado; e no terceiro, pensado para Greer Garson, Judy Garland é uma estrela que recebe um grupo de jornalistas para falar do seu próximo filme (sobre a Madame Crematante, a inventora do alfinete), mas primeiro questiona se deve fazer aquilo que o estúdio lhe pede ou evoluir para outros papéis – cantado por Judy Garland que até então era “obrigada” a espartilhar o peito para parecer uma menina, e que neste filme aparece numa reveladora roupa azul é bastante divertido, mas também de alguma maneira triste.
Assim, um filme bastante desigual, mas com alguns momentos que obrigam a vê-lo.

Publicada a 19-07-2021 por Fernando Oliveira