Cinecartaz

Fernando Oliveira

A grande parada

Será o filme que estabeleceu o paradigma do drama romântico com a guerra como pano de fundo: um soldado americano e uma rapariga francesa (John Gilbert e Rennée Adorée) apaixonam-se em França durante a Grande Guerra; é, claro, um amor vivido com urgência, no limite, excessivo mas também angustiante; que Vidor filma através dos gestos, das caricias entre os dois (tem um dos mais bonitos beijos mostrados em Cinema); um amor absoluto que quase dispensa as palavras.
Mas também é um dos filmes mais decisivos sobre a estupidez e o horror da guerra: primeiro Vidor mostra-nos a normalidade, o dia-a-dia sempre igual, as noticias da guerra longínqua, no outro lado do oceano. Depois a partida, ainda eufórica, ainda ingénua, as multidões a aplaudir os “heróis”. Depois o o horror, a ferocidade, a inutilidade de qualquer coisa que se faça porque a morte está ali ao lado, toma conta do filme todo (aquele interminável plano fixo sobre o moribundo com um cigarro na boca, a agarrar-se aos últimos momentos, depois já morto).
James e Melisande apaixonam-se, são felizes enquanto estão juntos; a tristeza da separação e a opressiva cena da partida dos soldados; há demenciais cenas de combate; há o reencontro dos dois, com ele mutilado, que comove até às lágrimas.
Vidor foi um dos nomes maiores do classicismo americano sempre capaz de integrar no necessário excesso narrativo do melodrama uma dimensão muito terra a terra, humanista. E isso é muito bonito, e por isto “A grande parada” é um filme lindíssimo.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 06-07-2021 por Fernando Oliveira