Cinecartaz

Fernando Oliveira

O acontecimento

É necessária uma predisposição especial para gostarmos muito dos filmes de Shyamalan, para aceitarmos a sua maneira de contar histórias, e a exigência que nos faz de acreditarmos. É um estado de espírito próximo daqueles que faz com que as crianças acreditem em histórias de encantar, um sentir de criança pelos olhos de um adulto.
E o mais extraordinário é que esta exigência que nos faz a nós espectadores, têm-na em relação aos seus personagens: que acreditamos, e que acreditem, na possibilidade de que o real pode ser invadido por acontecimentos que embora irreais definem a essência, a genuinidade, daquilo que é humano.
Presumivelmente as plantas, numa reacção de defesa, libertam químicos que impedem o funcionamento de alguns inibidores do cérebro humano, o que leva estes a suicidarem-se. É portanto uma espécie de sci-fi ambientalista. A parte inicial do filme, em que vemos as primeiras mortes (mais uma vez o enorme peso do 11-de-Setembro na sociedade americana: não apenas a cena dos obreiros a saltarem do edifício em construção faz lembrar uma das mais tremendas imagens desse dia; como a primeira explicação para o caso é a de que é um ataque terrorista – este é um filme que vai beber muito à ficção científica dos anos 50 do século passado: o ao medo inimigo externo retratado em ameaças inumanas) é avassaladora a mostrar não apenas o horror (a cena de Filadélfia é um prodígio de realização), como a demonstrar o medo e a desorientação das pessoas perante os acontecimentos.
O filme segue a fuga de um professor de Ciências, da sua esposa e da filha de um casal amigo, primeiro para longe de Nova Iorque, e depois já deixados no campo quando começam a ter consciência que o perigo vêm das árvores, dos arbustos, da relva…
Nos três filmes de Shyamalan anteriores a este a vegetação sempre foi o factor claustrofóbico de onde vem o mal, (os campos de milho em “Sinais”, a floresta a rodear a aldeia em “The village”, o bosque para lá da piscina em “ A senhora da água”), mas quantas vezes se viu os bosques filmados de uma forma tão ameaçadora, e não estou a falar do vento a fazer ondular a vegetação, estou a falar na forma como nos é mostrada a aproximação do personagem de Mark Wahlberg e dos acompanhantes às arvores, o medo quase palpável que se consegue sentir.
Shyamalan pode ter esvaziado neste seu filme, o mundo dos sonhos, e pesadelos, que costumavam ser os seus filmes anteriores, mas não deixou de nos contar uma inteligente história sobre o medo de nos sentirmos perdidos, inseguros, quando as referências desaparecem. Mas, nesta sua forma única de contar os seus filmes, Shyamalan é um enorme realizador romântico, dramático nas escolhas que obriga os seus personagens a fazer. Neste “O acontecimento”, naquela família em perda de confiança, naquela cena quase final, quando o fim parece próximo, quando os três saem para o exterior para estarem juntos, esse romantismo do realizador mostra-se de uma forma muito bela, sem ter medo de cair no ridículo.
Se Wahlberg, e a pequena Ashlyn Sanchez estão muito bem, é naquela expressão entre o brilhante e o meio apatetado de Zooey Deschanel que está o grande desempenho do filme.
Um belíssimo filme de Shyamalan.
8em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 06-02-2021 por Fernando Oliveira