Cinecartaz

Fernando Oliveira

Fúria sanguinária

Realizado em 1949 “Fúria sanguinária” (“White heat” é o titulo original) é um dos filmes essenciais da obra de Raoul Walsh, realizador cuja obra desde os anos 10 até 1964 se confunde com a história do Cinema clássico norte-americano. E Walsh é um dos nomes fundamentais dessa história.
Neste filme demencial e trágico, Cody Jarrett (James Cagney) é um psicopata, sofre de um transtorno mental e é o líder de um grupo criminoso; no inicio assaltam um comboio para roubar dinheiro do Tesouro americano e deixam um rasto de morte atrás. Refugiam-se numa casa isolada, com o grupo estão as duas mulheres da vida de Cody, a mãe (Margaret Wycherly) com quem partilha uma relação de dependência obsessiva e doentia; e a noiva, Verna (Virginia Mayo), que está com ele pelo dinheiro e que tem como amante um dos cúmplices de Cody, Big Ed. A relação entre todos é conflituosa. Enquanto a investigação da Policia vai avançando Cody usa um estratagema para afastar as suspeitas de si: confessa a autoria de um crime menor executado na mesma altura do assalto ao comboio. É condenado a ano e meio de prisão. Não engana a policia, para conseguir apanhá-lo um agente infiltra-se na prisão para tentar tornar-se amigo de Cody. Quando este é informado da morte da mãe (assassinada por Big Ed e Verna), consegue fugir da prisão levando com ele o novo “amigo”. Depois de matar Big Ed, outro assalto, a uma refinaria, começa a ser planeado; a partir daqui é um jogo entre o “gato e o rato”, entre o bando de Cody e a Policia. Enfim encurralado e sozinho, Cody foge para o cimo de um depósito de combustível; um tiro faz explodir o depósito numa nuvem de fogo branco, antes de morrer Cody grita: “Ma, top of the world”. Depois da morte da mãe, Cody é um homem isolado contra o mundo, a tanger a irracionalidade, confronta essa solidão com violência, imoral. A sua morte é um acto de absoluta auto-afirmação.
Neste filme, Walsh conseguiu articular as ambiências do filme de “gangters” que vinha dos anos 30 e os códigos do “film noir” da década seguinte numa realização enxuta de quem tudo sabe sobre o Cinema, sem rodriguinhos narrativos porque conta uma história aonde cada personagem não concilia o bom e o mau. Não, aqui mostram-se homens e mulheres com personalidades sombrias, gente terrível e cruel, simplesmente só porque sim. Mesmo com os policias, Walsh distancia-se. Nenhum personagem nos causa simpatia.
Um filme magnifico.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 22-09-2021 por Fernando Oliveira