Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Chloé Zhao, através do filme "Nomadland, transporta-nos numa viagem rumo ao "pesadelo americano" vivenciado pelos "invisiveis sem voz" vitimas dos múltiplos atropelos do capitalismo. Fá-lo tendo por base o trajecto de uma viúva solitária, quase sexagenária, que após ter perdido todos os bens em consequência da Grande Recessão ocorrida na primeira década do século XXI, compra uma caravana degradada e faz-se à estrada, embrenhando-se nas entranhas da América profunda, em busca de trabalhos temporários precários, que lhe permitam almejar a mera sobrevivência.

Por intermédio desta personagem (encarnada pela, sempre insuperável, Frances McDormand) vamos sendo (literalmente) inseridos, de forma honesta e delicada (e sim, se calhar, também algo romantizada), no seio de várias comunidades de nómadas dos tempos modernos (por norma, e à sua semelhança, cidadãos seniores, impossibilitados de se reformarem devido às baixas pensões, que se transformaram na nova mão-de-obra de eleição para trabalhos indiferenciados, e mal remunerados, no velho Oeste).

Desse modo, vivenciamos inloco os seus dramas e alegrias, sem sermos expostos à dissecação politica desta temática, bem como à exploração sensacionalista das emoções dos intervenientes, na sua maioria "vagabundos reais" que se representam a si próprios (já que a realizadora opta por apresentá-los, de um modo humanista/sensivel, como viajantes idóneos, corajosos e "repletos de histórias" que deverão ser alvo de respeito e admiração - e teria sido tão mais fácil para si transvesti-los como "white trash trumpista" anti-sistema).

Portanto, grosso modo, esta obra simples/sóbria poderá ser percepcionada como um road movie realista (com o "seu quê" de linguagem documental antropológica) e profundamente introspectivo (também "muito por culpa" do excelente trabalho da direcção de fotografia que nos entorpece continuamente com a vastidão das bucólicas "paisagens vazias", bem como da banda sonora que adensa a aura de melancolia).

Publicada a 19-04-2021 por José Miguel Costa