Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Malhas que (o fim) do império tece...

Existe uma América bem para lá dos arranha-céus de Nova Iorque e do glamour soalheiro da Califórnia. Milhões de americanos vivem em situações de pobreza ou próximos disso, vítimas da insensibilidade pragmática dos mercados, que tanto dão emprego como o tiram. Perante o término duma vida estável e dum emprego com horário fixo, há quem largue tudo, desde as raízes familiares aos alicerces de cimento e se aventure pela estrada fora, quais Kerouacs do século XXI, com uma diferença fundamental: ao contrário dos beatnicks e dos backpackers, os “nomads” já estão quase todos no último terço da sua vida…

Fern é uma viúva, sem filhos. A empresa onde trabalhava com o marido, na localidade pomposamente chamada de Empire, faliu ao fim de quase nove décadas. Em seis meses, todos os habitantes saíram e até os correios descontinuaram o código postal. Na sua caravana feita lar, onde guarda o essencial, desde as memórias aos poucos bens que lhe resta, Fern serpenteia pela estrada, de Estado para Estado, à procura de empregos temporários, seja nos armazéns da Amazon ou a limpar latrinas. Pelo caminho, cruza-se com muitos como ela, sem outro destino que não seja viver um dia atrás do outro. São gente boa, que troca os bens uns com os outros, que se reúne à volta da fogueira para se aquecerem, seja do frio ou da solidão. Fern tem várias hipóteses de se tornar sedentária, incluindo pela via amorosa, mas rapidamente conclui que a sua natureza é um pouco como o mar, revolto e imparável na sua batalha contra os imóveis rochedos…

Não é difícil perceber a enorme metáfora da América que “Nomadland” oferece. Como alguém diz, os “nomads” não são gente maluca (interessante que, se colocarmos ali um hífen, fica “no-mads”…) mas antes um grupo de gente que encarna o espírito dos “pioneers”, não só o dos que desceram em Plymouth Rock a bordo do Mayflower, mas o de todos aqueles que desbravaram o imenso espaço que hoje é os EUA, montados em cavalos e carroças, em direcção ao desconhecido, tal qual estes, hoje, só que com autocaravanas. E não perderam a noção de ambição, de sonho, como aquele que, longe do mar, comprou um barco porque, um dia, ia navegar com ele. O leitmotiv dos “nomads” é “I’ll meet you down the road”… Porque a vida é efectivamente um caminho que se cruza com outros, mais tarde ou mais cedo. E esses cruzamentos são pontos de viragem e de aprendizagem. A diferença é que os “pioneers” tinham o futuro à sua frente, enquanto a estes já pouco lhes resta… A passagem do tempo e a forma de o encarar exigem uma sabedoria que só a maturidade traz. Daí o simbolismo do dinossauro, do deserto, das estrelas… Somos muito maiores do que a nossa limitada existência terrena nos deixa ver mas também somos muito mais pequenos do que o nosso ego nos diz. Para caminhar em frente, é preciso largar o passado, mesmo que sejam velhas fotos ou objectos dum ancestral. É precisamente neste ponto que os “nomads” demonstram que alcançaram algo extraordinário: o sentido de comunidade, de entreajuda, de fraternidade, de harmonia com o mundo e com o universo. Aquele momento em que falam sobre estrelas e lhes dizem para estenderem as mãos porque ali vão cair partículas de estrelas, é das mais belas do filme. Assim como quando Fern se funde com a Natureza: ao abrir os braços e sentir o vento, ao olhar para o quente deserto que se estende até ao horizonte ou quando, nua, se deixa envolver pelas águas purificadoras dum ribeiro… No fundo, Fern está em harmonia com os quatro elementos clássicos e essenciais da existência.

Não deixa de ser irónico que esta visão sobre o declínio do “Empire” americano nos seja mostrado por Chloe Zhao, uma realizadora…chinesa, ou seja, alguém que vem dum país que é visto como grande causador da ruptura económica da América (veja-se o documentário “American Factory”, 2019, de Steven Bognar, Julia Reichert). Mas a verdade é que teve sensibilidade mais do que suficiente para perceber o sentido desta história e contá-la sem moralismos ou críticas supérfluas. Filmado em tons frios e secos, com grandes planos e uma câmara irrequieta, o filme está mais próximo do documentário do que outra coisa até porque exceptuando dois actores, todas as demais personagens são interpretadas por verdadeiros “nomads”. Esse par é constituído por David Strathairn, aqui em registo secundário, e pela enorme Frances McDormand que dá vida a Fern e está soberba, o que não é novidade para quem acompanha a sua carreira. O seu ar sério, é agora também triste e melancólico, o cabelo curto dá-lhe um ar ligeiramente andrógeno, como se ela não fosse mulher ou homem, mas antes simbolizasse qualquer ser humano.

Para adensar o clima melancólico de “Nomadland”, Zhao encontrou um extraordinário aliado no piano de Ludovico Einaudi. O italiano não compôs especificamente para este filme, antes viu a realizadora escolher do seu leque de peças as que achou mais indicadas para servirem de cenário sonoro à tristeza de Fern e à melancolia da paisagem.

Filmes destes, onde a gestão do tempo é essencial, quer da personagem, quer do espectador, são cada vez mais raros, já que a vertigem da acção e do tilintar da caixa registadora são sufocantes. Por isso, obras como “Nomadland” são verdadeiros alertas para que a indústria do cinema perceba que, se não mudar, perderá o seu “império”…

Publicada a 06-05-2021 por Pedro Brás Marques