Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

"Raparigas", a primeira longa-metragem da realizadora espanhola Pilar Palomero, é uma sensivel e intimista crónica coming of age sobre um grupo de pré-adolescentes de um colégio de freiras na Espanha do início da década de 1990 (ainda sufocada pelos ditâmes castradores de um regime patriarcal e ultra-católico).

Penetramos num universo exclusivamente feminino e partilhamos das suas rotinas banais e primeiras (cândidas) experiências "pecaminosas" (a incursão na audição de músicas pseudo-alternativas; os tops que mostram o umbigo; o bafo de cigarro "sem travar"; o gole de álcool que ainda provoca caretas; os flirts não concretizados; a rebeldia contida contra a autoridade).
Todavia, todo este contexto, e ao contrário do que seria expectável, é partilhado sem grandes aparatos narrativos e explosões dramáticas. Estranhamente (ou não), tal acaba por ser a força motriz desta obra, uma vez que a mesma não é interessante pelo conteúdo em si, mas pela forma como o expõe. Fá-lo com recurso a uma cámara que capta de modo continuo (e quase exclusivamente) grandes planos dos rostos dos seus personagens (o que ainda tem mais impacto se consideramos que o filme opta por um formato 4.3 - que se traduz num ecrã de menores dimensões, quase quadrado), não deixando escapar quaisquer resquicios ao nível da sua expressividade (especialmente da angelical protagonista - fixem o nome desta criança, Andrea Fandos). E a delicadeza/maturidade destas filmagens jamais implica que sintamos uma eventual invasão excessiva do "espaço pessoal" e/ou sufoco (o que é de mestre!).

Publicada a 04-06-2021 por José Miguel Costa