Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

"Quo Vadis, Aida?", filme da realizadora bósnia Jasmila Žbanic (fruto de uma coprodução que envolve 9 paises europeus), mergulha a fundo num dos capítulos mais negros e vergonhosos da História contemporânea europeia, a guerra dos Balcãs (ocorrida entre 1991 e 2001), e mais concretamente no genocidio étnico de Srebrenica, no qual o exército sérvio assassinou 8300 bósnios muçulmanos (contando para o efeito com o auxilio dos católicos vizinhos e ex-amigos destes).

Um drama de guerra que, apesar de possuir um contexto real (constituindo-se, por esse motivo, como uma - quase - obra documental que nos confronta com uma jornada progressiva de caos e falência moral das instituições internacionais), tem por base a história (que relata episódios vivenciados num período de 24 horas) de uma personagem central ficcionada (Aida).
Aida é uma tradutora local ao serviço da ONU, que tenta desesperadamente fazer-se valer do seu "estatuto" para colocar a salvo a sua familia. Todavia, esbarra sistematicamente na burocracia e na suposta neutralidade/cinismo de uma instituição que se limitou a observar, cobardemente, a preparação de um processo que visou exclusivamente conduzir milhares de civis inocentes, refugiados nas suas instalações, para o matadouro.
E assim assistimos angustiados ao percurso que medeia entre a fuga em massa da cidade (em consequência dos bombardeamentos) para a suposta segurança da base da ONU e o seu posterior reencaminhamento, com recurso a autocarros sérvios, para um alegado territorio neutro (tão seguro que muitos dos seus corpos ainda não foram encontrados até à presente data).

Estranhamente, e independentemente da força/seriedade inequivoca da narrativa (que abdica da manipulação emocional barata) e da interpretação aguerrida da protagonista, (Jasna Duricic), senti a falta de um "je ne sais quoi" indefinido que me impediu de amar incondicionalmente este filme (quiçá, por se revelar algo impessoal - e quase me sinto a blasfemar).

Publicada a 07-06-2021 por José Miguel Costa