Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Olhares

Um filme praticamente só com planos fixos e sem uma linha narrativa tangível. Poderia ser aborrecido, mas não é, muito pelo contrário.

Logo no início de “Notturno” somos informados que as imagens foram recolhidas, ao longo de três anos, na Síria, no Iraque, no Curdistão e no Líbano. O italiano Gianfranco Rossi, o realizador e co-produtor, filma momentos. Coloca a câmara, escolhe cuidadosamente o enquadramento, acerta as definições de cor e profundidade de campo e dá início à filmagem. Não lhe mexe, pelo que o que vemos é o que acontece à frente da lente: quem se desloca, quem entra e quem sai do plano, sem música, apenas o som ambiente. É como que uma daquelas webcam que abundam na internet, onde podemos assistir em tempo real ao que se está a passar em determinado ponto do globo, numa rua, numa sala, numa janela, sem que haja interferência nossa ou do proprietário do aparelho. Aqui é o mesmo. A própria intervenção de Rossi quase só se limita à recolha da imagem e às condições em que o faz. Não há respostas porque não há perguntas.

Ou seja, Rossi desafia-nos a que olhemos para cada plano como se de um quadro animado se tratasse, dando tempo ao espectador para observar e pensar. Veja-se o longo plano inicial, onde grupos de tropas, à primeira luz amanhecer, atravessam diagonalmente a imagem, em marcha, sempre uns atrás dos outros, num movimento repetitivo, que tanto pode significar a ligação umbilical entre o começo do dia e o do filme, como Rossi pode ter querido dizer-nos que a vida, por aquelas bandas, é uma rotina milenar onde a guerra está sempre presente… Por todo o filme, as imagens de destruição são uma constante: edifícios, ruas, cidades, toda uma visão da devastação que se espelha-se nas rugas e nos olhos tristes de quem por lá vive. A própria aridez da paisagem simboliza a falta de esperança numa vida melhor. Raramente se vê o Sol. Nos campos de refugiados, prefere-se a segurança duma frágil tenda de lona ao perigo duma sólida habitação de tijolo e cimento. Uma das imagens verdadeiramente impressionantes é a duma mãe, no interior do que terá sido um edifício militar onde teria estado e morrido o seu filho soldado, a tocar nas paredes invocando a sua alma e a sua presença, para amenizar a dor. Um pouco como os crentes tocam na imagem da divindade para a ela acederem…

São vários os planos em que os indivíduos retratados seguem os seus afazeres diários e ao longe se escuta o metralhar das armas, qual banda sonora perfeita, mas perversa, daquela existência dorida e difícil. Em contraste, silêncio só encontramos nos soldados que perscrutam o horizonte em busca de inimigos. Um dos parcos refúgios destas almas é a religião que não só oferece a paz de Alá, com também critica veementemente a América e, especialmente, o Estado Islâmico. O impacto deste é brutal, como atestam os perturbantes e revoltantes desenhos das crianças na escola, que em vez de animais e bonecos, retratam cadáveres nas ruas e pessoas a serem decapitadas.

“Notturno” acaba por ser algo mais do que o mero documentário, não só pelo cuidado na construção de cada imagem como na concepção, bem conseguida, de ilustrar a alma daquela gente que, há milénios, vive atormentada pelo fantasma da guerra, que Governo algum conseguiu exorcizar. Talvez um dia Gianfranco Rossi consiga realizar um outro documentário e chamar-lhe “Diurno”.

Publicada a 29-06-2021 por Pedro Brás Marques