Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Não é todos dias que estreia no circuito comercial nacional um filme africano, ainda mais oriundo da Costa do Marfim. Tal proeza deve-se a "Noite dos Reis".
Através do mesmo Philippe Lacôte (realizador e argumentista) transporta-nos até MACA, a maior e mais perigosa prisão do seu país (governada pelos próprios reclusos), para dar-nos a conhecer a experiência de Roman. Um jovem recém detido que, por força de circunstâncias, às quais é alheio (uma guerra pelo poder, devido a doença do actual lider), se vê no centro das atenções, ao ser-lhe incumbida a missão de "contador de histórias". Por forma a dar continuidade a uma tradição local, colocada em prática nas noites de lua cheia encarnada, que dita que se o indivíduo nomeado para o efeito não tiver o dom de debitar histórias ininterruptamente até ao amanhecer perderá a vida num ritual sanguinário (facto que não lhe é trasmitido).

Inicialmente o enredo (que decorre num só dia) parece direccionar-se para o tipico filme ultra-realista e melodramático em contexto de prisão (que, por norma, explora as condições subumanas em que sobrevivem os condenados da sociedade aí depositados), mas cedo se percebe que a fantasia e mitologia irá entrelaçar -se, de um modo engenhoso e sublime, com a realidade, dando lugar a um exotismo que nos arrebata.
Desse modo, e recorrendo narrativa metalinguistica (envolvida numa aura mágica e épica), coadjuvada pela introdução de uma série de artes performativas com raizes ancestrais (dança e música), acaba por contar-nos, pela boca de Ramon, a História recente da Costa do Marfim numa espécie de (magnifico) conto das "Mil e Uma Noites".

Publicada a 08-08-2021 por José Miguel Costa