Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

A comédia dramática "Má Sorte No Sexo Ou Porno Acidental", do realizador romeno Radu Jude, é um dos filmes mais subversivos e desconcertantes a que assisti nos últimos anos.
Filmado em plena pandemia, e tendo-a como uma das "personagens" omnipresentes, tem por base a história de uma professora de um colégio de elite que a vê a sua carreira em risco depois de uma ‘sex tape’ pessoal ir parar à Internet.

No prólogo somos confrontados com cenas de sexo explicito entre um casal, captadas em modo "home video".
De seguida a narrativa divide-se em três segmentos (formalmente diferentes entre si):
- 1° capitulo - Seguimos a deambulação incessante da protagonista pelas ruas de Bucareste, sem que saibamos qual o objectivo da mesma ou o destino final.
Impera um olhar realista próximo da linguagem documental (com o realizador a mostrar apreço por planos aparentemente desenquadrados e "sem sentido"), que nos conduz ao longo de uma cidade caótica e saturada por episódios soltos de agressões fortuitas, mesquinhez e constantes queixumes de anónimos ("não, nao vai ficar tudo bem").
- 2° capitulo - Indefinível e sem qualquer conexão com o enredo. Encaremo-lo como um "separador", durante o qual o Radu Jude dá asas ao seu delirio psicótico, brindando-nos com uma multiplicidade de curtos sketches de humor absurdo e non sense sobre temáticas dispares (e sempre com uma visão critica subjacente), recorrendo para o efeito exclusivamente a imagens de arquivo.
- 3° capitulo - Num contexto teatralizado assistimos ao julgamento da professora durante a reunião de pais na escola.
Uma paródia moral que coloca a nu as hipocrisias de toda uma sociedade podre (ali representada metaforicamente por cada um progenitores) e ironiza sobre os negacionismos e as indignações colectivas nas redes sociais.
E por fim temos direito a um epilogo tripartido, que nos dá opção de escolha sobre o desenlace.

Perante isto é fácil aferir que somos acometidos por sentimentos antagónicos ao longo do visionamento, mas "feitas as contas" como resistir a uma obra que termina com uma Mulher Maravilha a enfiar um dildo na boca de um padre?

Publicada a 16-09-2021 por José Miguel Costa